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Nesse Ponto

11 . 04 . 26    |    SODA

Ginevra Bria   

Curadoria   |   Texto

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Leandro da Costa. Nesse Ponto

 

O artista estabeleceu um ponto que estende a técnica da arte abstrata para um território desconhecido, um ponto de convergência. Onde tudo se transforma em um além invisível. Da Costa está sempre em busca de novos limites – acabados e inacabados. Eles realçam onde a “abordagem ao vazio” chegou, onde a “obra de arte” chegou, ou ambos. Compreender é uma tarefa de posicionamento. Da Costa está trabalhando no espaço de sobreposição de novas semirretas de pesquisa, de poesia e de estética. Sua abordagem à técnica nada tem a ver com oposições sentimentais e dialéticas entre tempo e espaço. Aqui, a questão é o esquema de um continuum, e os movimentos são questões de fato, de linhas, canalizando-se para um ponto plausível. Não há dimensionalidade subjetiva direta. Porque Da Costa, em Nesse Ponto, não visa trazer à luz um tipo particular de geometria, volume ou simetria, mas uma perspectiva artística completa, uma gaiola envolvida em uma multiplicidade de técnicas como pensamentos. E vice-versa. As estruturas de circuitos e diagramáticas de Nesse Ponto revelam uma consciência de massas físicas bidimensionalizadas nas paredes, na forma de cubos que se reformam e de intervalos regulares de linhas de lápis grafite desenhadas à mão. A virtude intrínseca da matéria-prima fica bastante evidente por meio da brancura apagada que reverbera em seus doze desenhos cúbicos, conectados por linhas e canalizados por um ponto de fusão no canto da única porta existente. Cada linha oferece uma solução diferente para o deslocamento do espaço e para o controle expressivo dos limites espaciais do Espaço Soda.

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As fendas, porções ou planos que Da Costa compartimenta estão mais próximos de uma extremidade do que os versos poéticos na base de cada desenho. Como resultado, o espaço parece espremido, como um limiar da terra. A inércia parece estar subdividida em áreas remotas de força. As linhas pretas, semelhantes a sismógrafos, em Nesse Ponto estão polarizadas entre duas dimensões massivas, enquadradas em vazios e ângulos. No entanto, nenhuma rotação parece possível, a menos que seja descoberta por meio de sequências, como uma série de imagens fixas de image en mouvement (imagem em movimento). Isso ocorre porque as silhuetas orográficas pretas são ladeadas por doze cubos arredondados polarizadores, fixados aos quadrados de papel e ativados por duas energias distintas, indicadas pelas flechas redondas. Tal rotação solidificada mina a sugestão de um espaço dinâmico. A matéria, e não o movimento, tornou-se a principal preocupação de Da Costa. Cada uma das estruturas de Nesse Ponto questiona a própria forma linear da matéria, emergindo da brancura. Isso é contrário à noção abstrata de que o movimento é um resultado direto do espaço. No Espaço Soda, o movimento poderia se tornar o resultado indireto de um ponto. A causa e o efeito de cada ponto isolado ou de um conjunto de pontos. Direcional para o ângulo superior esquerdo da porta.  

              

Toda a natureza não-criada em Nesse Ponto parece ter sido abstraída da noção artificial de paisagem por meio da aplicação de grades físicas, porém imateriais. Assim como os artistas maneiristas do século XVI permutaram os fatos do Renascimento Clássico, Da Costa permuta os fatos de uma realidade abstrata. Dessa forma, Da Costa descobre um novo tipo de arquitetura baseada no nível do chão, embora os seus métodos contrários a façam parecer construída de antimatéria. Talvez, em Nesse Ponto, matéria-prima e antimatéria, palavras e sinais, sombras e fronteiras, sejam a mesma coisa. Uma falta de consciência de massa parece ter causado o fim de Nesse Ponto, ao desempenhar a efemeridade, e isso também pode explicar a dissolução do desenho e do acontecimento. Se a hipostatização da ação, da energia, do movimento e de outros componentes congelados de Da Costa é o principal motivo deste artista, Nesse Ponto é uma resposta não antropomórfica à atrofia. Da Costa montou esta grade retangular, paralela, tubular e convergente, unida em um mapa, como o centro do trabalho em si, no formato de um funil irradiante, mantida logo à frente da entrada do espectador. Em Nesse Ponto, o suporte de moldura das linhas a lápis tanto sugere quanto parodia a noção de campo, chamando a atenção para a estrutura. Esse elemento torna-se menos uma paródia e mais um fato consciente em Nesse Ponto. A estrutura simétrica e sem apoios de Da Costa, elevada acima da visão em escala humana, elimina qualquer dúvida sobre a importância da armação ao afirmar sua presença formal para além de qualquer referência a desenhos de parede planos. Todas as superfícies desaparecem em Nesse Ponto, mas retornam, talvez mais tarde, ao seu ponto teoricamente fabricado, atrás de uma porta, com novas e surpreendentes implicações.

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Nesta obra, em um limiar entre interior e exterior, não há confusão entre os aspectos antropomórficos e o abstrato da vida cotidiana de um ser humano. Isso leva a uma maior consciência da estrutura, mantendo uma distância remota em relação à organicidade da poesia. O inconsciente não tem lugar nas cinco paredes do Espaço Soda. O estado mental cristalino de Da Costa está longe das inundações orgânicas de improvisação instantânea no fim ou no início de um determinado período. Imersas em Nesse Ponto, as conexões e seus fins traduzem conceitos algorítmicos em geometrias de fatos, sem quaisquer representações ilusórias. Em Nesse Ponto, de Da Costa, o espaço parece pertencer a uma ordem de dureza crescente, não muito diferente daquela de formações geológicas ou de estratigrafia. Ele reservou o espaço em forma de repositórios de memória. Tais depósitos vêm de sua mente, de seus pensamentos, e não da natureza. Em vez de trazer uma cosmogonia do céu, como fizeram os pintores dos períodos Renascentista, Barroco e Maneirista em suas muitas versões de A Deposição em terra, Da Costa trouxe o espaço para um mundo abstrato de formas essenciais. Ele está envolvido no que poderia ser chamado de deposição de um espaço infinito, por meio de um ponto. Ali, o tempo pode ter muitas representações antropomórficas ou não humanas, mas o espaço não tem nenhuma. Não há espaço, mas tudo é uma extensão possível do espaço, entre um passado imprevisível e um futuro fechado. Ainda assim, todos temos uma espécie de fé enigmática nele. O que parece tão sólido e final em Nesse Ponto é, ao mesmo tempo, esquivo e frágil.

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A lógica formal das simetrias diagramáticas, independentemente de qualquer conteúdo científico preconcebido, relaciona-se, de maneira abstrata, à intervenção de Da Costa. Se definirmos uma linha de raciocínio abstrata como um cubo sólido, limitado por superfícies agrupadas simetricamente, que possuem relações definidas com um conjunto de linhas imaginárias, chamadas eixos, então temos uma pista para a estrutura dos instantes súbitos de vida de Da Costa, traduzidos em versos poéticos. No entanto, fora da linguagem, os eixos de Da Costa não correspondem a nenhum sistema natural. Toda a grade colapsaria sem a tensão das linhas convergentes. Os doze eixos estão polarizados entre três paredes de branco sideral e as superfícies do piso. Ao mesmo tempo, as superfícies internas dos desenhos são visíveis por trás do acrílico transparente. Cada superfície está em plena vista, o que torna o interior e o exterior da geometria e da poesia, das mãos e dos olhos de Da Costa igualmente importantes. Como muitas das obras de Da Costa, as partes separadas de Nesse Ponto são mantidas juntas por uma tensão e um equilíbrio aparentes, ambos os quais contribuem para sua existência estática.

No Espaço Soda, o volume branco do pé-direito alto sublinha as divisórias reversíveis, de cima para baixo, como característica marcante da instalação. É impossível definir o que está pendurado em quê ou o que está sustentando o quê. Altos são baixos e baixos são altos. Uma materialidade estranha, inerente à superfície, engole a estrutura básica de Nesse Ponto. Tanto a superfície quanto a estrutura existem simultaneamente em condição suspensa. O que está fora desaparece para encontrar o de dentro, enquanto o que está dentro desaparece para encontrar o de fora. O conceito de antimatéria ultrapassa e preenche tudo, fazendo com que essas obras tão definidas beirem o desaparecimento. O fenômeno importante é sempre a falta básica de substância no cerne dos fatos de Da Costa. Quanto mais se tenta compreender as estruturas das linhas, mais desconcertante se torna o ponto inicial ou final da perspective cage. Nesse Ponto parece não ter equivalente natural a nada que seja físico, e ainda assim, tudo o que traz pontualmente à mente é a fisicalidade.

 

Ginevra Bria

2026

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